Ilustração anatômica da pelve feminina destacando retocele

Quando eu falo sobre dificuldades para evacuar, percebo que muitas pessoas pensam logo em intestino preso e param por aí. Mas nem sempre a causa está só no ritmo intestinal. Em alguns casos, existe uma alteração anatômica na região pélvica que muda a forma como as fezes são eliminadas. É aí que entra a retocele.

A retocele é um abaulamento do reto em direção à parede posterior da vagina, causado por fraqueza nos tecidos de sustentação.

Na prática, isso pode criar uma espécie de bolsa onde parte das fezes fica retida durante a evacuação. Eu costumo dizer que o problema não é apenas “fazer força”, mas sim a dificuldade de esvaziar o reto por completo. Esse detalhe muda tudo, inclusive o tratamento.

Como essa alteração interfere na evacuação?

O reto e a vagina ficam muito próximos. Entre eles, existe uma parede de suporte formada por tecidos, músculos e fáscias. Quando essa estrutura enfraquece, o reto pode projetar-se para frente. Em casos leves, a pessoa quase não percebe. Em quadros mais marcados, surgem sintomas bem incômodos.

O efeito mais comum é a sensação de evacuação incompleta, mesmo após longo tempo no banheiro.

Já vi pacientes relatarem algo muito parecido: “Eu sinto vontade, faço força, mas parece que sempre fica alguma coisa”. Esse relato é bastante típico. Às vezes, a pessoa precisa mudar a posição do corpo, pressionar a região vaginal com os dedos ou voltar ao banheiro pouco tempo depois.

Evacuar não deveria ser um sofrimento.

Quem tem mais risco?

Nem toda mulher com dificuldade evacuatória tem esse problema, mas alguns fatores aumentam a chance de surgimento. Em minha experiência, o quadro costuma ser multifatorial. Ou seja, raramente existe uma causa única.

Os fatores de risco mais comuns incluem:

  • Parto vaginal, sobretudo quando houve lacerações, fórceps ou bebês maiores.
  • Envelhecimento, com perda natural de elasticidade e força muscular.
  • Menopausa, pela mudança hormonal que afeta os tecidos pélvicos.
  • Constipação crônica e esforço repetido para evacuar.
  • Histórico de cirurgias pélvicas ou ginecológicas.
  • Fraqueza do assoalho pélvico.
  • Obesidade e aumento persistente da pressão abdominal.

Esses pontos ajudam a entender por que algumas mulheres desenvolvem o problema ao longo dos anos, mesmo sem perceber uma mudança brusca no início.

Quais são os sintomas mais comuns?

Os sinais variam bastante. Algumas pacientes têm um abaulamento pequeno e poucos sintomas. Outras apresentam desconforto intenso. Eu acho útil separar os sintomas em dois grupos: os ligados à evacuação e os ligados à sensação pélvica.

Entre as queixas mais frequentes, estão:

  • Sensação de evacuação incompleta.
  • Necessidade de fazer muita força para eliminar as fezes.
  • Vontade de evacuar várias vezes ao dia, com pouco resultado.
  • Necessidade de pressionar a vagina ou o períneo para ajudar a saída das fezes.
  • Constipação associada.
  • Sensação de peso ou abaulamento vaginal.
  • Desconforto na relação sexual em alguns casos.

Nem toda retocele causa dor, e a ausência de dor não exclui um problema funcional na evacuação.

Esse ponto costuma surpreender. Muita gente espera dor forte como sinal de alerta, mas o principal sofrimento às vezes é a rotina desgastante no banheiro, o desconforto íntimo e a vergonha de falar sobre isso.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com escuta atenta. Eu sempre valorizo a história clínica, porque ela dá pistas muito claras sobre o tipo de dificuldade evacuatória. Depois disso, o exame físico ajuda a avaliar a presença do abaulamento, o comportamento do assoalho pélvico e a associação com outros prolapsos.

O diagnóstico não depende só de “ver a alteração”, mas de ligar a anatomia aos sintomas da paciente.

Em muitos casos, a avaliação pode incluir:

  • Consulta clínica com exame proctológico e ginecológico.
  • Avaliação funcional do assoalho pélvico.
  • Exames de imagem, como defecografia ou ressonância dinâmica da pelve.
  • Investigação de constipação, dissinergia evacuatória e outras alterações associadas.

Eu considero muito útil uma visão multidisciplinar. Há situações em que coloproctologista, ginecologista, fisioterapeuta pélvico e radiologista contribuem para montar um quadro mais fiel do problema. Isso evita tratar apenas a aparência anatômica e ignorar a função.

Quem deseja entender melhor a avaliação das queixas intestinais pode consultar conteúdos sobre sintomas e avaliação em doenças do cólon e reto. Também vale conhecer os exames proctológicos e quando eles são indicados.

Quando o tratamento conservador é indicado?

Nem toda paciente precisa de cirurgia. Isso é algo que eu gosto de deixar claro desde o início. Nos quadros leves ou moderados, e também quando os sintomas estão mais ligados ao funcionamento do assoalho pélvico, o tratamento conservador pode trazer bom alívio.

As opções mais usadas são:

  • Ajuste da dieta com aumento gradual de fibras e água.
  • Rotina intestinal com menor esforço evacuatório.
  • Fisioterapia pélvica para coordenação muscular e fortalecimento.
  • Biofeedback em casos selecionados.
  • Uso de pessário, quando há prolapsos associados ou indicação ginecológica.

A fisioterapia pélvica ajuda tanto na prevenção quanto na reabilitação, porque melhora força, percepção corporal e coordenação para evacuar.

Em minha observação, a melhora não vem só de “fortalecer”. Muitas pacientes precisam aprender a relaxar no momento certo, respirar melhor e reduzir o empurrar excessivo. Esse ajuste fino faz diferença.

Quando a cirurgia pode ser necessária?

A cirurgia costuma ser considerada quando há sintomas persistentes, falha das medidas conservadoras ou abaulamento mais relevante, com impacto claro na qualidade de vida. Mas a decisão não deve se basear apenas no tamanho da alteração visto no exame.

Eu penso assim: se a paciente tem uma alteração anatômica visível, mas quase nenhum sintoma, a conduta pode ser diferente daquela pessoa que sofre todos os dias para evacuar.

As técnicas cirúrgicas variam conforme o caso. A escolha depende de fatores como idade, função intestinal, presença de outros prolapsos, cirurgias prévias e achados de imagem. Em algumas situações, a correção pode ser feita por via transanal, vaginal, perineal ou abdominal, conforme a avaliação individual.

Em casos com associação a outros distúrbios do assoalho pélvico, a abordagem precisa ser ainda mais cuidadosa. Quem busca contexto sobre prolapsos pode ler sobre prolapso retal e opções cirúrgicas de fixação dos órgãos pélvicos.

Qual é o papel do coloproctologista?

O coloproctologista avalia a parte funcional e anatômica do reto, do ânus e da evacuação. Isso parece simples, mas não é. Muitas vezes, a queixa envolve mais de um mecanismo ao mesmo tempo. Pode haver abaulamento retal para a vagina, constipação funcional, fraqueza muscular e até incontinência fecal associada.

O tratamento adequado depende de descobrir qual problema está por trás de cada sintoma.

Por isso, eu vejo o acompanhamento individualizado como parte central do cuidado. Não existe uma receita igual para todas as pacientes. Algumas melhoram com mudanças de hábito e reabilitação. Outras precisam de correção cirúrgica. Há também quem precise tratar condições associadas, como descrito em conteúdos sobre incontinência fecal e opções de tratamento.

Se a pessoa deseja se informar mais sobre temas da área, pode acompanhar materiais sobre coloproctologia.

Prevenção e reabilitação no dia a dia

Nem sempre é possível prevenir todos os casos, mas algumas atitudes ajudam muito. Eu costumo orientar medidas simples, que fazem sentido na rotina e podem reduzir sobrecarga sobre o assoalho pélvico.

Entre elas, destaco:

  • Evitar esforço excessivo e repetido para evacuar.
  • Tratar constipação desde cedo.
  • Manter boa ingestão de água e fibras, com ajuste individual.
  • Praticar exercícios orientados para o assoalho pélvico.
  • Buscar avaliação quando houver sensação de abaulamento, peso pélvico ou evacuação difícil.

Eu sei que falar sobre essa região ainda gera vergonha. Mesmo assim, silenciar costuma prolongar o desconforto. Quando a paciente entende o que está acontecendo com o próprio corpo, o medo tende a diminuir e as escolhas ficam mais claras.

Retocele tem tratamento. E, acima de tudo, tem avaliação. Quanto mais cedo a queixa é investigada, maior a chance de aliviar sintomas e recuperar conforto para evacuar, sentar, caminhar e viver com mais tranquilidade.

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Dra. Grasiela Scheffel

Sobre o Autor

Dra. Grasiela Scheffel

A Dra. Grasiela Scheffel é especialista em Coloproctologia e Cirurgia Geral, atuando nas cidades de Passo Fundo e Marau, no Rio Grande do Sul. Seu trabalho distingue-se pela dedicação ao atendimento humanizado, discrição e uso de técnicas minimamente invasivas, como cirurgia robótica, videolaparoscopia e procedimentos a laser. Seu compromisso está em proporcionar conforto, bem-estar e privacidade a seus pacientes, tratando questões íntimas com seriedade e acolhimento.

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